“LUGAR DE ARQUIVO É NO MEIO DA RUA”: CONSERVAÇÃO E DIFUSÃO DE ACERVOS


Cláudio Correia de Oliveira Neto – Consultor técnico do AMAN/Historiador
Poliana Cláudia Martins da Silva Dantas - Consultora técnica do AMAN/ Historiadora
            A coordenadora geral do Arquivo Metropolitano da Arquidiocese de Natal (AMAN), irmã Vilma Lúcia de Oliveira, costuma nos provocar dizendo que “lugar de arquivo é no meio da rua”. Esta metáfora é muito poderosa e rica em especial por sua ambiguidade, uma vez que o meio da rua pode representar tanto a proximidade com o povo quanto o descarte de algo desnecessário. Não raro, arquivos institucionais e pessoais inteiros vão parar no meio da rua no pior sentido possível. Mas o que a irmã quer nos provocar é que os arquivos precisam se aproximar de seus públicos. É sobre as estratégias que a equipe do AMAN vem adotando para levar os arquivos para o meio da rua que iremos apresentar aqui hoje.
            As experiências de diversos arquivos mostram claramente que há uma invisibilização destes locais de memória, as próprias representações sobre estes lugares como sujos, escuros e isolados demonstram isso. Ainda é muito recorrente adjetivar os arquivos históricos como “mortos”. A invisibilidade dos arquivos afetam diretamente os investimentos que são feitos neles e respectivamente na conservação de seus acervos.
            Muitos arquivos ainda sofrem para se estruturarem e atenderem as condições mínimas de conservação documental e acessibilidade a informação. Mas mesmo quando já estão minimamente organizados sofrem com a baixa procura. São como dona Morgadinha do conto “O Marajá”, de Luís Fernando Veríssimo, que tem verdadeira obsessão por deixar a casa arrumada para a visita de um marajá que nunca chega.  A presença, a qualidade e a quantidade de usuários de um arquivo é fundamental para atrair fomentos que os auxiliem, dê visibilidade ao arquivo e que a própria instituição onde estão inseridos passem a valoriza-los mais.
            Mas como criar público? Como superar o paradoxo entre salvaguardar a documentação controlando o acesso e ao mesmo tempo a expondo a um grande público? As respostas ainda não estão completas, mas as experiências que o AMAN vem desenvolvendo nos últimos 2 anos trazem algumas pistas.
            O primeiro passo foi mostrar a comunidade acadêmica norte-rio-grandense a riqueza documental. Para isso os consultores técnicos do AMAN empreenderam pesquisas no acervo e publicaram em eventos científicos em congressos, simpósios, encontros.
Consultor Técnico do AMAN , Cláudio Neto apresentando trabalho na ANPUH -RN 2018, no Simpósio Temático de História do Catolicismo

           
Em seguida a equipe AMAN começou a promover seus próprios eventos, o primeiro foi a mesa redonda “Dom Nivaldo Monte 100 anos: governança, memória e herança” dentro da 2ª Semana Nacional de Arquivos. Na oportunidade esta atividade foi pensada para ser para o público interno da Arquidiocese de Natal, porém para a feliz surpresa da organização o público majoritário era o externo. Isto já apontou que havia toda uma demanda externar avida por conhecer o AMAN e a história da Igreja no Rio Grande do Norte.

Participantes da mesa redonda "Dom Nivaldo Monte 100 anos: governança, memória e herança" na 2ª Semana Nacional de Arquivos (2018)

            Pensando em longo prazo e na necessidade de envolvimento do futuro clero o AMAN firmou parceria com o Seminário de São Pedro para incluir na grande curricular dos futuros padres a disciplina de Bens Culturais da Igreja. A disciplina foi pensada para ter duas vertentes a teórica e a prática. Na parte teórica havia os estudos das cartas pastorais sobre os bens culturais da igreja: arquivos, biblioteca, museus e etc. Na parte prática as vivências, que eram as visitas técnicas a estes espaços e a aplicação em campo das recomendações das cartas. Durante a disciplina os alunos foram realizando diagnósticos sobre os arquivos das paroquias onde atuam, inventário dos bens culturais destas paroquias, visitaram o Museu de Arte Sacra de Natal, o AMAN, o Laboratório de Conservação e Restauração (LABRE) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), o Laboratório de Imagens (LABIM) e o Laboratório de Arqueologia (LARQ) da mesma universidade, planejaram intervenções culturais para as suas respectivas paróquias, escreveram relatos de experiências publicados no e-book “Bens Culturais da Igreja: documentos vivenciados” e organizaram a exposição “Bens Culturais da Igreja: preservando o passado, construindo o futuro”.
Primeira aula da disciplina. Nas aulas teóricas fizemos a leitura, estudo e  reflexões das 7 Cartas Pastorais sobre os bens culturais da Igreja.
Visita técnica ao Museu de Arte Sacra de Natal que administrada pelo IPHAN –RN em parceria com a Fundação José Augusto. A visita foi orientada por um roteiro onde os alunos deveriam analisar o museu visitado a luz da Carta Pastoral sobre os Museus Eclesiásticos. 

Visita aos laboratórios  da UFRN. O papel destas visitas é que os futuros sacerdotes saibam onde recorrer em caso de necessidade técnica 

           
A disciplina culminou no I Colóquio de Bens Culturais da Igreja do Rio Grande do Norte que contou com a já citada exposição, o lançamento do e-book e uma mesa redonda com os laboratórios da UFRN. Graças ao sucesso do evento o Seminário expandiu a disciplina de 30 horas para 60 horas no próximo semestre (2019.2) e a criação da disciplina de Bens Culturais da Igreja 2 (2020.1) voltada para a gestão e pesquisa em bens culturais da igreja.
Montagem da exposição "Bens Culturais da Igreja"
Mesa redonda "Unidos para preservar" com as coordenadoras e coordenador dos laboratórios da UFRN


Visitante da exposição "Bens Culturais de Igreja"


            Em 2019 no plano anual de ação do AMAN incluímos 3 minicursos a serem realizados a cada 4 meses para a comunidade acadêmica externa e a publicação de nossos instrumentos de pesquisa. O primeiro minicurso “Introdução à pesquisa em Arquivos Eclesiásticos” contou com 75 inscritos. A demanda para uma segunda edição do mesmo curso é grande. Em agosto será realizado o segundo minicurso para a elaboração de projetos de pesquisa e em novembro o terceiro minicurso ainda sem temática definida.

Primeiro Minicurso de Introdução à pesquisa histórica em Arquivos Eclesiásticos 

            O sucesso do primeiro minicurso fez com que a Arquidiocese investisse mais na participação do AMAN na 3ª Semana Nacional de Arquivos. Com isso foi possível verba para organizar a exposição “O Sal da Terra: 70 anos de missão do Serviço de Assistência Rural” com recurso de realidade aumentada.


            Desde que começamos a levar nosso arquivo para o meio da rua a demanda aumentou, em 2018 foram realizados menos 30 atendimento no ano, até a presente data (06 de junho de 2019) já foram mais de 50 atendimentos realizados de pesquisadores locais e nacionais, fora os que já estão agendados. Todos os usuários declaram no ato do agendamento o compromisso de divulgar o AMAN nos resultados de suas pesquisas e de entregarem cópia física e/ou virtual dos resultados finais das pesquisas.
            Até o final do ano haverá os minicursos, o II Colóquio de Bens Culturais da Igreja e a criação do Laboratório de Estudos do Catolicismo (LEC). O LEC será um espaço de colaboração cientifica para estudos e pesquisas sobre a temática do catolicismo a partir da reserva técnica do Arquivo Metropolitano da Arquidiocese de Natal e sua gestão e tem como objetivo iniciar estudantes da graduação em pesquisas na temática do catolicismo a partir da reserva técnica. O LEC garantirá um público mais perene e de qualidade usando e divulgando o AMAN.
            Esperamos que nosso relato de experiência realizado aqui hoje ajude mais arquivos a irem para a rua conosco!



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